O Primeiro Contato
Ernesto estava sentado no canto do banheiro, com as mãos sobre a cabeça, açoitado por uma legião de vozes das quais ele não fazia ideia de onde vinham. Ele se contorcia de desespero, enquanto pronunciava baixinho, diversas vezes: “Me deixem em paz”.
Ernesto tremia. Seu corpo magro e enrugado, sinais da velhice, pois era um senhor de 65 anos, estava todo encolhido em um pijama verde-musgo. Ele estava dormindo quando as vozes começaram a atormentá-lo. Seu rosto continha uma expressão pálida de desespero; os sinais da idade deixavam sua expressão de horror ainda mais acentuada. As mãos se arrastavam pela sua cabeça em um movimento repetido. Havia uma touca em sua cabeça não muito tempo atrás, mas ela caiu no chão quando ele colocou as mãos sobre a cabeça calva.
O ambiente era úmido, frio, com cheiro forte de sabonete barato. Estava parcialmente escuro, iluminado apenas pela lâmpada do abajur que vinha do quarto do senhor. Ele sequer pensou em ligar as lâmpadas quando correu em direção ao canto em que se encontrava agora. A situação piorava quando, de vez em quando, encostava na parede extremamente gelada, fazendo seu corpo dar um pequeno espasmo pelo incômodo.
O som das vozes estava cada vez mais forte, como se estivessem se aproximando, cada vez mais perto e mais alto. Ernesto sabia que tapar os ouvidos não adiantava; era como se a voz tivesse origem dentro da sua cabeça. Mas isso não o impediu de tapá-los e pressionar mais forte os ouvidos a cada aumento de volume.
Era um emaranhado de vozes, todas falando, gritando e sussurrando ao mesmo tempo. Não eram palavras conhecidas, talvez algum idioma desconhecido ou apenas grunhidos intraduzíveis. Talvez fizessem sentido, mas era impossível distinguir qualquer coisa naquela multidão de vozes, que se contrapunham e se misturavam. Ernesto não tinha interesse em entender. Ele queria que parasse.
O velho estava com os olhos fechados, se balançando, repetindo aquela mesma frase por minutos, horas. Não tempo suficiente para que as vozes parassem. Talvez morresse pronunciando-as, e as vozes continuassem em seu pós-vida, isso se não tivesse morrido enquanto dormia e estivesse pagando seus pecados naquele exato momento.
Quando enfim abriu os olhos e olhou ao seu redor, piscou algumas vezes para ter certeza de que não estava delirando. Não que piscar pudesse provar algo a essa altura. Na verdade, ver o lodo preto que estava começando a escorrer pelos cantos do teto, arrastando-se pela parede em direção ao chão, fez com que acreditasse com certeza que estava insano. Ele enlouquecera completamente. Era a única explicação.
Ele travou por alguns momentos. Queria sair dali, mas ao mesmo tempo se perguntava se fazia diferença. Se havia enlouquecido, para ele só havia um destino, passar o resto de seus dias em um quarto acolchoado de um sanatório, com uma camisa de força, sendo alimentado por algum jovem que odiava seu trabalho, mas o fazia com um sorriso falso no rosto. Em um momento de coragem, ele se pôs de pé e decidiu que sairia dali. Negava-se a aceitar a situação. Buscaria ajuda. Contaria, da melhor forma possível, sem parecer um insano ou drogado, para seus vizinhos o que ouviu e viu, e pediria ajuda.
Ernesto pôs-se a correr em direção à porta de saída da casa. Desceu o mais rápido que conseguiu as escadas e trombou contra a porta da frente devido a uma tentativa frustrada de abri-la, pois falhou em posicionar a mão na maçaneta. Após um gemido baixo, devido à dor que sentiu no ombro após a colisão, conseguiu girá-la e abriu a porta.
A visão que Ernesto teve ao abrir a porta era surreal, insana, inacreditável, apocalíptica. As ruas começavam a ser inundadas pelo lodo preto que ele viu no banheiro. Uma parte saía dos bueiros; outras forçavam passagem através de frestas na calçada. Uma árvore do outro lado da rua tinha o lodo saindo de seus vincos. Havia gritos, não das vozes que ouvira mais cedo, mas de seus vizinhos, enquanto corriam em desespero ou chamavam por alguém. O velho estava paralisado enquanto olhava em volta; era uma figura solitária na calçada, em meio ao caos. Ignorou completamente sua casa, que agora estava quase toda coberta por lodo preto atrás dele.
O som de uma caminhonete dando ignição roubou a atenção de Ernesto, que se virou em direção ao som. Ele viu Paulo, seu vizinho, colocando sua filha no banco de trás do veículo, enquanto a esposa entrava no banco do carona. Em seguida, o vizinho correu até o volante e começou a acelerar. Nesse momento, Ernesto teve uma ideia. Seu vizinho poderia tirá-lo dali, dar uma carona para fora daquele pesadelo. O idoso avançou em direção à estrada e deu sinal com a mão, mas Paulo passou direto por ele. Será que não o viu? Estaria conversando com a esposa e não percebeu que ele estendeu a mão para pedir uma carona? Ele jamais negaria ajuda, certo? Eles tinham um bom relacionamento, sempre conversavam sobre a vida e futebol. Até mesmo já o convidara para um churrasco em sua casa não muitos dias atrás.
Ernesto tentava entender o porquê de estar ali no meio da rua e não ao lado da filha de Paulo como carona naquele momento, perdendo aos poucos a esperança de sair daquela situação. Pensava no que aconteceria com ele agora. Aliás, o que era mesmo aquele lodo preto? Tinha alguma relação com as vozes que ouviu ou era algo novo? Uma coisa era certa. Não era coisa boa. Possivelmente alguma substância tóxica que iria invadir seu corpo e matá-lo lentamente, causando agonia e dores insuportáveis até que seu corpo cedesse à morte. Perdido em seus pensamentos, não percebeu o carro que acelerava em sua direção.
O motorista do Gol preto procurava um mapa que estava em algum lugar no porta-luvas quando percebeu a presença de Ernesto. Já era tarde demais. Ele bateu no velho com tudo, ouviu o baque forte do corpo que deslizou pelo vidro da frente e voou para trás do carro.
O corpo do idoso estava largado no chão. Sangue escorria pela boca. Ele havia quebrado vários ossos e emitia um som baixo e engasgado, derivado da dificuldade para respirar. O motorista desceu e foi em direção a ele, mas se assustou com algo. Voltou imediatamente para o carro e arrancou.
Ernesto não estava com a cabeça virada para o veículo que o atropelou. Apenas ouviu o som do carro queimando pneu e indo embora. Mas ele tinha outra visão naquele momento. Como se já não bastasse sua situação atual, via aproximar-se dele um fio do lodo preto, que se arrastava pelo chão em sua direção. O medo começou a apertar seu peito. Aqueles eram seus últimos momentos de vida, mas o que o torturava mais era não saber se morreria pelo impacto do carro ou por aquela coisa preta e asquerosa transgredindo seu corpo.
Por um instante ele havia conseguido ignorar as vozes, mas agora que a rua estava mais silenciosa, e ele não tinha mais o que fazer além de esperar sua morte, voltou a ouvir aquele coral incessante de vozes, cada vez mais alto, cada vez mais forte. A diferença desta vez é que elas começaram a se organizar. Por alguns momentos ele pensou ter entendido algumas palavras, até que enfim ouviu uma frase sendo repetida.
“Não se preocupe, Ernesto. Nós vamos te ajudar. Você está salvo!”
O lodo preto chegou até ele e começou a entrar em seu corpo a partir da boca. Ele sentiu algo viscoso se arrastar por sua garganta. Tossiu e engasgou enquanto o lodo se arrastava para dentro dele. Suas veias começaram a ficar marcadas no corpo, parecendo vários galhos pretos. De seus olhos começou a escorrer o líquido escuro, deixando em seu rosto um rastro como se estivesse chorando.
Os ossos de Ernesto começaram a se movimentar e se organizar. Ele ouviu suas pernas e braços se endireitarem. Acompanhou sua mão, que, contra sua vontade, apoiou-se no chão. Viu seu corpo se pôr de pé com dificuldades.
Ele estava agora no meio da rua, em uma pose estranha e torta, mas de pé.

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